Quando soube da Ocupação no Paço das Artes fiquei perdido.

Pra falar a verdade estava tão sobrecarregado de trabalho que nem entendi o conceito direito. Quem me falou da ocupação foi a Mirtes Marins. Ela fora convidada a ocupar um pedaço do espaço do Paço das Artes na exposição comemorativa dos 35 anos de fundação dessa instituição. A instalação por ela imaginada tratava dos Territórios Ocupados, áreas do mundo dominadas pela força bruta através de guerras e invasões. Em princípio eu seria responsável pelo registro em vídeo e fotografia da reação que a instalação de Mirtes causaria nas pessoas.

Ofereci-me para publicar esse material quase que no mesmo momento via internet. Esse seria um trabalho conjunto do núcleo de pesquisa por mim coordenado (Núcleo de Pesquisa em Arte e Tecnologia) e do grupo coordenado por Mirtes (Núcleo de Estudos em Fotografia) na FASM – Faculdade Santa Marcelina, instituição onde trabalhamos. Eu iria envolver minha equipe de pesquisa composta por alunos do Mestrado em Artes Visuais (FASM e ECA/USP), doutorado (FAU/USP) e do Bacharelado em Artes Plásticas. Em segundo lugar também seria responsável pelo suporte a um trabalho de registro da ocupação organizado por Magali Sehn. Seria um trabalho de organização de pesquisa, basicamente. Essa é uma área pela qual sou conhecido e a tarefa não me assustava.

No entanto, resolvi ocupar mais espaços...

Ultimamente eu andava envolvido com a implementação do SiteEspecífico.org. Essa foi uma idéia que Mirtes já andava gestando e pela primeira vez estávamos dando forma à coisa toda. O site seria um espaço de trabalho, divulgação e reflexão sobre pesquisa em arte. Seria uma expressão virtual de nossos núcleos de pesquisa. Seria, enfim, uma forma de ocupação artística do espaço virtual.

Ora pois, o SiteEspecífico era perfeito para tratar da ocupação artística de um espaço institucional. O Paço das Artes não conta com facilidades de rede e portanto descartei completamente a idéia da instalação de um terminal para que o público pudesse navegar pelo site na própria exposição. Essa dificuldade não me intimidou. Resolvi que no espaço do Paço das Artes, ao lado da instalação de Mirtes, haveria um chamariz para o site. Esse chamariz seria algo que fizesse com que as pessoas, ao chegar em casa, acessassem a internet e continuassem seu passeio por meu trabalho. Imaginei um pequeno stand promocional, ou talvez ainda, um totem com uma luz estroboscópica chamando a atenção do público. Nesse chamariz haveria uma pequena explicação para o trabalho e um folder promocional ã disposição de todos. Pensei até mesmo em criar alguma coisa bem precária em contraposição ao uso da tecnologia. Por exemplo, poderia produzir os folhetos por meio de mimeógrafos...

Mas essa não foi a única idéia!

Quando estava ainda pensando sobre a organização da equipe de registro sobre a exposição lembrei de alguém que não fora “convidado” para a ocupação: Maria de Castro.

Essa famosa artista portuguesa que abandonou a arte conceitual pelas delicias da pintura figurativa em aquarela é um de meus trabalhos, o que chamo de Character Specific. “Construída” para ser apresentada na Labor III de maneira a testar o público e as formas de legitimação dos artistas e de suas obras de arte, Maria de Castro tomou vida própria. Mesmo quando eu a desmascarei propositadamente no I Simpósio de Pesquisa em Arte (FASM, 2004), ela continuou viva no imaginário do ArtWorld. Utilizei a metodologia da Ficção-científica para construir esse personagem que, de tão forte, não conseguia mais anular. Pois bem, se Maria de Castro continuava viva e forte ela deveria querer reclamar seu espaço na ocupação do Paço das Artes!

Sim, produzir uma performance com Maria de Castro no Paço seria uma forma de ocupar o meu próprio espaço! Ela poderia aparecer em carne e osso durante a exposição reclamando da vida, da falta de convite para participar na ocupação do Paço das Artes e contando um pouco de seu drama pessoal aos transeuntes. Suas aparições seriam filmadas e transformadas em um videoarte/documentário. Seria intitulado “Maria de Castro II: a Vingança”.

Se eu tivesse agilidade suficiente poderia colocar esse vídeo on-line ainda durante a exposição. Quem sabe?

Uma outra idéia surgiu enquanto esperávamos Lisette Lagnado para uma palestra na FASM. Conversando com Mirtes sobre as dificuldades de se conseguir uma atriz que pudesse fazer a performance do personagem ao longo dos vários dias da ocupação percebi que poderia dividir a atuação entre várias pessoas diferentes. Essas atrizes se fixariam em determinadas etapas da vida de Maria de Castro e eu poderia programar a atuação delas ao longo da exposição. Enquanto esperávamos que a palestra começasse contei a idéia a Stella Teixeira de Barros que achou a idéia muito interessante. Pensei até que poderia ter formadores de opinião da área de artes visuais fazendo esse papel e dando legitimidade a uma artista que não existe, um “personagem específico”. Comecei a imaginar vários artistas, críticos e personalidades incorporando Maria de Castro.

Enfim, é esse o processo que está por trás dessa ocupação virtual do espaço do Paço da Artes em seus 35 anos.

Agora é ver no que vai dar...

Ricardo Hage de Matos
São Paulo, 26 de maio de 2005